Respostas

Ah… A Rita

Muitos sambas são compostos em resposta a sambas anteriores. É o caso do maravilhoso “Samba que nem Rita adora”, de Luis Carlos da Vila, feito em “resposta” a “A Rita”, do Chico. São dois dos mais belos sambas que eu conheço.


A Rita – Chico Buarque

A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
O que me é de direito
E Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de são Francisco
E um bom disco de Noel

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão


Um Samba Que Nem Rita Adora – Luiz Carlos da Vila

O Chico falou
Que a Rita levou
O sorriso dele, o assunto
Eu sofri seu sofrer, mas pergunto
Se o meu ele ia aguentar
A quem tanto queria um presunto
Dei meu corpo morrendo de amar
Onde havia um horizonte defunto
Pus um sol a brilhar

Num instante eu tirei
Suas mãos lá do tanque
Presenteei
Máquina de lavar
Contratei pra passar
Dona Sebastiana
Testemunha ocular do esforço que fiz
Para ver tudo azul
Que até carvão e giz
Teriam final feliz na África do Sul

Acontece, ô Chico
Você mesmo diz
Que a Rita levou o que era de direito
Acontece que a Dora sem ter o direito
Levou tudo que eu já ia lhe dar
Se não deu pra formar um conjunto
O meu som não podia dançar
Se não deu pra gente ficar junto
É um lá, outro cá

Me dediquei
Uma trova, um soneto e um samba-canção
Mas é que a danada não tem coração
Tem não, tem não
Sem mais e sem menos resolve ir embora

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A grande polêmica, ou a polêmica de grandes

Mas a réplica mais famosa a um samba provavelmente partiu de Noel Rosa, que, em resposta a um samba de Wilson Batista, deu inicio à célebre polêmica entre os dois sambistas. Tudo começa com o samba “Lenço no pescoço”, de Wilson, gravado em 33 por Silvio Caldas:


Lenço no Pescoço – Wilson Batista

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

E eles tocam
E você canta
E eu não dou

Máximo e Didier, na biografia de Noel, apontam para uma disputa amorosa com Wilson como sendo o motivo da resposta do poeta da Vila. Este que foi um legítimo malandro estaria criticando um malandro específico – um “Rapaz folgado” -, e não a malandragem em si.


Rapaz Folgado – Noel Rosa

Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha

Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão

Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado

É claro que Wilson Batista não poderia deixar barato: comporia uma resposta ao “Mocinho da Vila”. Seria um samba de importância menor, de tal maneira que nem seria lançado na rádio, só sendo gravado em 56. Mas seria o estopim para uma das maiores obras-prima de Noel…


Mocinho da Vila – Wilson Batista

Você que é mocinho da Vila
Fala muito em violão, barracão e outros fricotes mais
Se não quiser perder
Cuide do seu microfone e deixe
Quem é malandro em paz
Injusto é seu comentário
Falar de malandro quem é otário
Mas malandro não se faz
Eu de lenço no pescoço desacato e também tenho o meu cartaz

Noel não deixaria barato, e com genialidade defenderia seu bairro, com seu “Feitiço da Vila”:


Feitiço da Vila – Noel Rosa e Vadico

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo

Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba

A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço descente
Que prende a gente

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
“Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora”

Eu sei por onde passo
sei tudo o que faço
paixão nao me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!

Wilson, em busca de projeção, responderia que isso era “Conversa fiada”:


Conversa fiada- Wilson Batista

É conversa fiada
Dizerem que o samba
Na Vila tem feitiço.
Eu fui ver pra crer
E não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
Porém é preciso cuidado:
Antes de irem dormir,
Dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui lá na Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados.
A lua nessa noite demorou tanto,
Assassinaram-me um samba.
Veio daí o meu pranto.

A resposta de Noel? Um dos maiores sambas de todos os tempos, criticando o “Palpite infeliz” de Wilson, e pondo as coisas em seus devidos lugares…


Palpite Infeliz – Noel Rosa

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila Não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

A história do samba termina aí a polêmica, apesar de um samba extremamente agressivo que Wilson comporia para atacar Noel. “Frankestein da Vila” partia para o pessoal, ofendendo Noel. São variadas as interpretações com relação à reação do poeta da Vila a esse samba. Em seu respeito não postarei aqui a musica ou sua letra.

Noel e Wilson comporiam, mais tarde, pelo menos mais dois sambas juntos. Mas aí não se trata mais de respostas a outros sambas…

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