Século das catástrofes

Hoje a humanidade julga que o sistema capitalista de mercado é o melhor para sua economia, assim como ontem julgou que o sol girava em torno da terra; e ainda marginaliza quem divirja. Isso atrasa, mas não pode impedir a marcha evolutiva do homem.
As verdades – sociais ou astronômicas – cedo ou tarde serão introduzidas por reformas, insurreições e revoluções na história. História que leva a culpa e o mérito de cada individuo, duplamente responsável por sua vida e pelo impacto dela para a coletividade. O processo de tomada de consciência do individuo consiste justamente em entender o duplo caráter de sua vida e alinhá-los.

Alinhar a vida privada com a pública implica em resgatar aquela profunda solidariedade que nos toma quando presenciamos situações de extrema fragilidade, como as que sucedem catástrofes naturais e/ou humanas, solidariedade essa que é, claramente, uma condição necessária para a regeneração social. Sim, vivemos em uma sociedade degenerada, e o maior sinal disso é a catástrofe cotidiana que não presenciamos, que a mídia não mostra, que assola silenciosamente bilhões de seres humanos que padecem de fome, sede, e, para garantir sua sobrevivência, são obrigados a se submeter a condições deploráveis que desafiam nossa imaginação.

As catástrofes que presenciamos nos amedrontam, expõem nossa fragilidade e despertam em nós aquela suprema consciência que nos foi legada pela humanidade, expondo claramente nosso dever moral para com nossos semelhantes; já a catástrofe diária que não queremos presenciar, que gostaríamos que não existisse, não nos desperta a consciência, a solidariedade ou a revolta: nos acostumamos a ela, a naturalizamos, não só por preguiça, egoísmo ou pelo apego a nossa atual condição material, mas também por sermos induzidos a tal por um perverso sistema de suporte ideológico (que inclusive nega as ideologias) que visa a manutenção das estruturas de poder.

Sou um humanista, não quero ver uma hecatombe catastrófica, mas não consigo vislumbrar uma mudança estrutural no sistema produtivo sem uma grande ruptura que exponha as contradições que hoje naturalizamos – em um mundo de um bilhão de famintos e de um bilhão e meio de obesos -, de desigualdade e injustiça a níveis inaceitáveis. Essa ruptura implicará na disseminação da miséria, que exporá a força social da necessidade, e também no processo de declínio relativo nos padrões de consumo.

Como Josué de Castro bem expôs em seu livro Geopolítica da Fome: “(…) no mundo das realidades sociais, as idéias só se propagam quando se sobrepõem a alguma necessidade indiscutível de determinado momento histórico. E uma grande parte do mundo ainda não se convenceu inteiramente da necessidade de acabar de vez com a fome. Continua pensando ser mais importante manter regionalmente seus altos padrões de vida e, socialmente, certos privilégios de classes, do que combater o fenômeno da fome no cenário universal. E, enquanto muitos assim pensarem, o mundo continuará sob a ameaça das hecatombes de guerras e revoluções, até que a necessidade de sobreviver a qualquer custo obrigue os privilegiados a abandonar seus privilégios.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: