Humanidade Doente


(O desenho acima é do Eduardo Marinho. Para mais informações sobre sua arte e sua visão de mundo, visite seu blog, http://observareabsorver.blogspot.com.br/ )

A humanidade está doente. Nunca foi tão grande e, paradoxalmente, junta e desunida. Junta por suas complexas inter-relações econômicas e por sua tecnologia – pela materialidade -, desunida no plano dos valores, por sua falta de solidariedade – imaterial.

A humanidade hoje aparece para mim como uma família de pai violento e irracional, mãe violentada e submissa, cujos filhos vivem brigando entre si, todos obrigados a viver na mesma casa. Por isso está doente. O pai – poderoso – por não conseguir evitar sua animalidade, a mãe por sua inferioridade e resignação, e os filhos, tão diferentes entre si, enquanto se viam presos àquela estrutura familiar que eles não escolheram. A doença era falta de liberdade.

Se entendermos por liberdade o reconhecimento e a obediência a leis, normas, estruturas e autoridades autonomamente, por vontade própria do individuo, sem pressões de outros indivíduos, grupos ou instituições, iremos constatar que na grande família humana quase ninguém é livre. Quem foi consultado a respeito da legitimidade do Estado em que vive, das fronteiras e leis que nos cercam, muros e bandeiras que nos separam? Quem compactuaria, livremente, com a sociedade das catástrofes ambientais e sociais? Quem é livre – de fato – não aceita resignação diante do que é obviamente mutável.

Estando o organismo social enfermo, passa a apresentar sintomas que recorrentemente são confundidos, por nossos especialistas, com a causa da doença. Os principais são a depressão geral, aquela sensação de desamparo (que geralmente é anestesiada por religiões, drogas e tranquilizantes químicos, livros de autoajuda, amigos virtuais, etc.) e a violência onipresente.

Mas os filhos crescem, e na rebeldia de sua juventude resolvem ousar, mudar. Aprenderam com a história, na era da informação, que o passado não representa grilhões, mas apenas nos dá lições para o futuro. Por mais antigos que sejam os valores, por maiores que sejam os muros, por mais complexas que sejam as cercas, por mais poder que detenham os privilegiados no mundo hoje: tudo muda. O homem evolui, ora de forma mais lenta, ora de forma mais veloz. E nunca de forma linear, retrocessos fazem parte do processo assim como o erro faz parte do aprendizado.

E estamos aprendendo. A incerteza quanto à nova estrutura familiar ou quanto à sua ausência deverão trazer hesitação, mas da imaginação consciente (ou mesmo dos sonhos) cedo ou tarde surgirão novas estruturas. E já é previsível, por parte dos beneficiados e de todos os outros por eles iludidos, uma ferrenha resistência aos precursores da nova sociedade. Por isso deve-se abandonar o imediatismo sem abrir mão do caráter concreto da mudança. Deve-se preparar, no plano cultural, dos valores, o terreno para a transição da base material de nossa sociedade. Esta ocorrerá por si só. Os retrocessos tornam-se cada vez mais perigosos com o crescente poder do homem. Justamente por isso devemos imaginar os novos caminhos, livremente.

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