Rio11

Rio 2011: Crônicas sobre o Rio de Janeiro

“Rio de Janeiro
Uma cidade que representa o país
Um país que representa o mundo”

Crônicas do meu Rio, da minha baía…
Hoje, remando na baía de Guanabara – entre Botafogo e a Ponte – me deparei com situações inusitadas, além de todos os escombros, lixos e sujeira. Além dos tradicionais pássaros e peixes, cuja multiplicidade desafia as cagadas humanas – em especial a poluição -, vi uma trupe de golfinhos se somar à lista de animais observados na área: garças, pingüins, e até uma raia. Parece que estão se adaptando ao tóxico ambiente.

Viva a evolução!

Mendigos, pescadores e drogados descansando nas pedras do aterro já fazem parte da rotina de quem rema por ali. Se de um lado Deus foi generoso com as curvas da natureza e das mulheres desse pedaço dos trópicos, o homem, por outro lado, soube destruir o que pode das obras do Criador: botar morros abaixo e aterrar, poluir e desmatar (e reflorestar), etc; fazer cirurgias plásticas e maquiagem, costurar roupas e criar modelos de beleza (e por exclusão, o “resto”). Há ainda a própria obra humana, a construção da sociedade. Construção destrutiva, destruição criativa… Papo complexo: os excluídos não entendem linguagem prolixa, não freqüentam universidades, não tem noção de direitos, não sabem como funciona a economia. Por que falar deles se não estivermos nos dirigindo a eles?

Viva a involução!

E aí bate o saudosismo… não do tempo em que a baía era limpa, pois não peguei essa fase, mas do tempo em que o D2 criticava o Faustão ao invés de freqüentá-lo: “é muito fácil falar de coisas tão belas, de frente pro mar e de costas pras favelas”. É muito fácil viver uma vida privilegiada na cidade mais maravilhosa do mundo, sem se preocupar com o resto. Para eles há o aparato repressor… Um analgésico! Não adianta, a doença “violência” não é nem nunca será curada pela polícia, muito pelo contrário, tem seu quadro piorado por esta. Cito novamente o Planet: “de que adianta você falar que a culpa não é sua, enquanto isso crianças morrem de fomes na rua?”

Eu me recuso a viver uma vida de privilégios à custa dos direitos alheios. Eu me recuso a fechar os olhos para o “resto” da sociedade, que encontra nas aprazíveis pedras do aterro um lugar para descansar (enquanto a polícia não vem perturbar).

Viva o Rio! (de belezas, é certo, mas acima de tudo o Rio dos contrastes)

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Crônica do meu Rio, da minha baía… (2)

Nesses anos de remo só tive a oportunidade de cruzar com golfinhos duas vezes na baía de Guanabara, o que já é impressionante. Numa dessas felizmente estava com minha câmera.

Em geral quem adentra a baía do Rio – em transatlânticos vindos de terras distantes onde o sol não dá sua graça como aqui entre os trópicos; em cargueiros que trazem produtos de onde a mão de obra é abundante e barata; ou em barcos a remo, motor e a vela – não imagina a diversidade que se esconde nas profundezas da Guanabara: olha para os escombros, lixo e peixes mortos da superfície, sem imaginar a vida lá em baixo.

Analogamente, todos fazem escolhas, se ficam na superficialidade da realidade, ou se tentam observar o que, no fundo, se passa. São poucos os que, da superfície, observam o que há lá em baixo, e menos ainda os que decidem mergulhar. Também pudera – na baía de Guanabara e fora dela – é tanta sujeira, tanta cagada humana, que a aversão é gerada. Se lembrarmos o tamanho da realidade e da baía, de como somos insignificantes diante delas, ficaremos paralisados, sem saber por onde começar, sem acreditar que nossas ações podem impactar significativamente o Rio e o mundo. Mas podem.

Quantos de vocês já mergulharam na baía de Guanabara?

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Em uma cidade de calor tropical,
agravado pelo aquecimento global,
usa-se paletó para se ser tão chique quanto se é no norte…
Por que não se usa algo mais adequado ao clima?
Padeça de calor filhote do sistema!
Não te esqueça que o ar condicionado que te resfria aquece o planeta.
Aproxima-te cada vez mais do inferno,
enquanto julgas ser o capitalismo o céu dos sistemas.

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Fui à Barra e não vi o Cristo,
tava um inferno.
Voltei pra Santa,
pra pecar.

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e a chuva castiga a falta de planejamento da cidade, a começar, como sempre, pelos mais humildes; “feliz eu vivo no morro”…
(26/04) – após fortes chuvas que afogaram a cidade (mas não o ‘morro’ de Santa)

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O ar, outrora invisível, agora exibe em tons de cinza a poluição que a cidade expele, sendo frequentemente rasgado por balas – perdidas ou não – que insistem em procurar pobres e negros; já nos acostumamos a mergulhar em mar sujo e a ver a baía de Guanabara e a Lagoa poluídas (para esta nossa maior esperança é a migalha que sobra da fortuna de um bilionário)… É a vez de nos acostumarmos com o fogo brotando do chão? O inferno finalmente consumirá nossa cidade de pecadores?
(07/07) – após a explosão de bueiros

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18 anos da candelária>conclusão: nossa PM é malthusiana. Já que o problema da pobreza não está na distribuição da riqueza (se esta for alocada da forma capitalista, acumulando-se, pode crescer mais do que de outra forma), porque não continuar exterminando os meninos pobres (como o Juan) até que o Brasil seja um país rico – sem miséria?

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O Cristo Redentor, dois milênios depois de ser crucificado, hoje abençoa com angustia a cidade do Rio de Janeiro. É que a humanidade continua degenerando a si própria e à obra de seu pai (que em poucos lugares foi tão generoso quanto aqui).
Os solos agricultáveis foram e são progressivamente degradados pela monocultura; o solo urbano é lamentável, com asfalto e calçadas irregulares e bueiros que explodem; a luz vira e mexe acaba; a água – das praias, lagoas e da baía de Guanabara – está poluída, e quando chove alaga e desliza encostas. Nesse cenário as crianças trabalham, catam lixo, mendigam, usam drogas, se prostituem, e recorrentemente são fuziladas por uma polícia que se ocupa de combater e de cometer crimes. Esta é mal remunerada, bem como outras muitas categorias, como professores e bombeiros. Os trabalhadores não protestam apenas por salários melhores, mas também por terra e teto, sendo recorrentemente despejados. A cultura alegra, mas a saúde e a educação entristecem, bem como a corrupção e a violência que já viraram rotina. Não se rouba apenas dinheiro, mas também merenda escolar, armas, medicamentos, bebês. O horizonte nem mais azul é, agora é cinza…
(23/07) – após notícia sobre roubo de bebê

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bonde fora dos trilhos, trágico símbolo da nossa sociedade degenerada
(30/08) – após catástrofe do bonde

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As coisas vão mal, muito mal. Quanta revolta, quanta indignação.
Cristo presenciou Santa chorar, um dos bairros mais alegres do mundo se entristecer.
A voracidade do dia a dia não pode nos impedir de construir uma sociedade melhor.
(20/09) – após ver vídeo documentando o tombamento do bonde

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de Pereira Passos à Sérgio Cabral… cariocas, higienizai vossa cidade
(04/10) – após ver charge das remoções para grandes eventos esportivos

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O jogo imita a vida, a vida imita o jogo. As crianças mais pobres chacinadas – dos menores da Candelária ao menino Juan – morrem na vida real, as outras matam no mundo virtual. Todas são bombardeados por imagens de violência pela TV (em média a cada três minutos). Tentam nos convencer que a violência é doença, e que o remédio é mais violência. Mas esse “remédio” só agrava o quadro; e violência não é doença, se não apenas um sintoma de uma sociedade degenerada.

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Rio de Janeiro

Uma cidade que representa o país

Um país que representa o mundo

Séculos de monocultura degradaram nossos solos, décadas de monocultura degradaram nossas mentes

Décadas de industrialização poluíram nosso ar, nossas praias, baías e rios

Sempre que chove muito alaga tudo e as encostas desmoronam

A administração pública absorve vultuosos recursos da sociedade e proporciona precários serviços de saúde, educação, transportes

A violência no trânsito nos assusta, e a violência fora dele nos apavora

Nas ruas estamos acostumados com a miséria, e até com a explosão de bueiros

Os administradores públicos praticam crimes contra a sociedade: na prefeitura e no governo do estado, com escusas relações com grupos de poder econômico e paramilitar

As pessoas que lutam contra os crimes contra a sociedade são, via de regra, assassinadas, como é costume no campo (como com a Dorothy, Chico Mendes e os incontáveis anônimos), e na cidade (planejam assassinar o deputado Freixo como fizeram recentemente contra a juíza Accioli)

A forças de segurança que deveriam combater o crime também o cometem, até contra crianças (Candelária, Juan); pessoas relacionadas às forças de segurança formam grupos paramilitares e oprimem parcelas expressivas da sociedade

Exploração irresponsável do homem – chegando à chacina de negros e índios – e da natureza – com devastação da biodiversidade – pelo homem não são exceção, mas regra em nossa história de poucos séculos

Mas pelo menos aqui a natureza também foi generosa, e a humanidade mostra tímidos sinais de evolução…

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Era uma vez um bilionário, uma empresa estatal e uma multinacional. O bilionário, esbarrando em limites socioambientais, resolveu ajudar na limpeza da lagoa; a estatal, depois de poluir a baía, se comprometeu a construir um parque técnológico na cidade; a multinacional ainda não anunciou que prêmio de consolação dará para a sociedade carioca…
(22/11) – após vazamento em poço de petróleo explorado pela Chevron

(B.W.)

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