O sonho da rosa

Introdução…

• Minha filosofia não distingue época da colheita: segue plantando continuamente.
• No reino do capital predomina a hipocrisia; eis a importância de lutar com a poesia.
• É uma luta injusta, e por isso não me apego concretamente aos frutos que planto, se não à certeza de que eles virão. E de que novamente virarão sementes. Mas somente se eu plantar, é claro.

Prólogo:

Ó querida poesia!
Liberta-me da triste sorte
Do capital, da hipocrisia
E da iminência da minha morte

1. O rei do jardim

Os tronos de ouro e pedras preciosas – símbolos da ganância por poder e do apego sórdido à materialidade – caíram sucessivamente com a lenta e gradual queda dos autocratas. Agora no topo da extensa cadeia de suserania e vassalagem que constitui a sociedade humana moderna só há espaço para o mais poderoso e egoísta rei, o capital, o último grande soberano.
Para que o capital nascesse – obra de seu futuro escravo – foi necessário que a Europa saqueasse todos os outros continentes. Aquele amontoado de riqueza despertou os piores sentimentos humanos de ganância, que acabaram contaminando o dinheiro, uma das preferidas formas que o capital assumiria dali para frente.
Depois de criar a igreja e fazer atrocidades a ela se submetendo, o homem faria o mesmo com o Capital, e a correspondente transição de valores privilegiaria a propriedade privada em detrimento à vida. Mas não sabiam isso os fundadores da atual sociedade civil, aqueles que cercaram os campos expulsando camponeses para a cidade, aqueles que operaram a revolução das máquinas, e através do comércio e da indústria multiplicaram, em escalas de magnitude até então inimagináveis, a riqueza da humanidade. Cuja divisão seria extremamente mesquinha: os criadores do capital, é preciso que se diga, foram acostumados, por séculos a fio, a privilégios absurdos. E assim o capital nasceria egoísta, submetendo sucessivamente a humanidade e o planeta terra para multiplicar-se.
O mercado, seu principal ambiente, foi expandido continuamente, e encontrando, do mesmo modo que sua respectiva matemática (multiplicação da riqueza; divisão mesquinha) limites. O ar, outrora invisível, agora lembrava, em escuras nuvens espessas, quem ditava as ordens do dia. Do dia mais quente e da noite mais fria. A água, antigo símbolo da vida, agora carregava a química, a morte; o oceano, cemitério de proporções inimagináveis. Havendo a toda superfície terrestre e boa parte da natureza sido devastada para a produção de riqueza, o capital revolveria incansavelmente as profundezas da terra, submetendo definitivamente a natureza, e avançaria com suas garras até para fora do planeta, transformando lentamente o universo, assim como os oceanos, em um enorme lixão.
Uma das últimas resistentes ao novo estado, a rosa selvagem, teve o último sonho. Sua espécie, condenada a viver o último dia para sempre na grande estufa universal, não mais dormia: assim como as galinhas, fora privada de seu sono para sempre, para desenvolver-se ao ritmo desejado pelo capital. O capital desprezara os sonhos, mas o último sonho da rosa ele não desprezaria – um sonho em poesia, uma profecia -, uma vez que suas pretensões de domínio global, universal e eterno seriam ameaçadas.

2. O jardineiro

O jardineiro era um homem trabalhador. Batalhador, acordava cedo todos os dias, tomava sua média e um pão na manteiga e ia para a labuta. Sempre a mesma luta, perdia horas no transporte público que já nem causava revolta: raramente e cheio na ida, bizarramente lotado na volta. Quase sempre no trajeto bolava seu projeto de ter uma terra só sua, plantar e criar sua comida, ter um belo jardim. Mas não era bem assim, lembrava como trabalhava o ano inteiro e como faltava dinheiro para seu mais básico consumo. E ali, voado na ida quando dava o azar de pegar o motorista errado na hora errada, e principalmente engarrafado como sempre na volta, pensava no dono da empresa de transporte, como deveria andar em seu carro de luxo com ar condicionado. Mas religiosamente trabalhava.
Seu trabalho não lhe dava mais a alegria de outrora, mas nunca fora um fardo, dado que gostava do que fazia. Sua rotina ali e na vida em geral não mudava muito, mas aquele dia seria diferente. A tarde caíra de uma hora para outra, e nem fora percebida pelo jardineiro, atento ao seu trabalho na luminosa estufa. Mas o alerta sonoro o lembrou do fim do expediente, e ele silenciosamente saiu do trabalho.  Já na rua seus ouvidos reclamaram daquele barulho de buzinas, seus pulmões torceram o nariz para aquela fumaça, seus olhos, perdidos entre os infindáveis carros – a maioria com um ou dois passageiros -, ônibus lotados, prédios, luzes, ficaram zonzos. Por fim algo, talvez sua consciência, lhe disse que ali não era o seu lugar, para sair dali. As pernas obedeceram. Caminhou por algum tempo.

3. O tempo

O tempo, cansado das nuvens de poluição e de hipocrisia que hoje predominam no planeta que escolhera para ficar – um dos mais lindos do universo -, nostalgicamente se lembra de quando o mundo era um só jardim, o verdadeiro paraíso, e de quando a humanidade era uma fraterna família. Como um filme vê a recente evolução do animal ao homem, e deste desde que não sabia que o era, até que se descobriu, passando pela fase em que acreditou ser criatura de sua criatura. Lembra quando gregos e romanos diziam que ele matara seu pai e até que comia criancinhas, e de Babel, quando Deus, orgulhoso do feito de seu criador, decide presenteá-lo com as diferentes línguas, e toda sua diversidade cultural. Vê os homens se escravizando uns aos outros, vê o paraíso sendo progressivamente destruído, vê a promessa de vida após a morte da igreja e de prosperidade depois da miséria do capital. Vê o jardineiro saindo do trabalho, aparentemente desgostoso com a situação, e lhe fala baixinho à consciência para que ele saia dali. O homem obedeceu e o tempo lhe seguiu.
Quieto e sábio, o tempo sempre observa a tudo pacientemente. O jardineiro já andara por algumas horas, saíra da cidade e agora se encontrava em uma região descampada. E é ali que o tempo nota a rosa, se dá conta de quem é, mas decide não perturbar o seu sono. Fala apenas ao jardineiro.

4. O pesadelo e o sonho

O tempo fala baixo e de forma muito calma ao jardineiro:
– Jardineiro, tenho algo a lhe dizer.
Assustado, o homem retruca, ainda sem entender bem a situação:
– Como sabe que sou jardineiro? Quem é você? O que você quer de mim?
E eis que o tempo responde:
– Ó pobre jardineiro, tu me tens como inimigo, mas tu que levas consigo o que crês ser o meu mal. És mortal, um dia te levarei, como fiz com teus ancestrais e com os descendentes farei. Mas não precisa ter medo, não te preocupes com o segredo de para onde o levarei; confia em mim quando lhe digo que tua terra é o único paraíso – que eu já vi em toda a minha longa existência – que tu mesmo destruiu e que vais reconstruir.
– Como assim?
– Eu estou tão farto do que se passa nesse planeta quanto você. Sei do seu amor às flores, do qual eu compartilho. Sei do teu amor à natureza, e o quanto te entristece ver o ar, a água e sua terra sendo progressivamente degradados. Sei que você passa a vida a trabalhar, paga absurdos impostos e não recebe em troca bons serviços públicos, e mal consegue se sustentar. Sei quem é o culpado disso tudo, é o maior soberano que eu já vi. Ele tenta de qualquer maneira me conquistar, e para isso faz uso do naturalismo, quer parecer natural, imortal. O máximo que ele conseguiu foram alguns séculos, e eu já estou farto disso. Não aguento mais ver brigas internas na família humana, outrora tão fraterna, e a natureza prostituída para tentar saciar tanta ganância, insaciável!
– E o que você vai fazer?
– Te contarei a tua história. Quando aquela rosa acordar – disse isso apontando para uma flor, destacada por trás dos arbustos – tu também despertará. E farás história. O sonho dela é o teu futuro. E é o último sonho, aquela é a última rosa selvagem, todas as outras vivem freneticamente sem dormir em luminosas estufas, como aquela em que tu trabalhas, para desenvolverem-se mais rápido e serem vendidas mais depressa. Algo semelhante ocorre às galinhas, e coisas ainda mais terríveis a certos bezerros e ursos, relegados à total escuridão e privados de qualquer tipo de alimentos sólidos. Mas desgraça por desgraça, falemos da tua.
O jardineiro ouvia tudo atento, sem saber bem quem lhe falava. Um orgulho bobo e sem sentido lhe impedia de perguntar quem era aquela entidade, que prosseguia:
– Essa tua rotina de angústia e de insegurança, de trabalho duro e desconforto material e sobretudo espiritual é o pesadelo do trabalhador, que sustenta os mesquinhos sonhos da classe que baseia a sua existência na remuneração de sua propriedade. Na bolsa do poder são todos escravos. O problema é que muitos querem passar do pesadelo ao sonho, mantendo esse sistema de fragilidade onírica. Ainda não se deram conta que precisam despertar.
– Quem é você, que aparenta ser tão sábio?
– Eu sou o tempo, teu companheiro e de teus ancestrais desde antes da escrita. Sou seu aliado na luta pela retomada do nosso jardim, pela derrocada do capital e de seu fim. Não preciso dizer mais nada, conforme eu passar tu e teus irmãos irão despertar. Concretizar-se-á o sonho da rosa.

5. O sonho da Rosa

A última rosa selvagem presenciara a conversa sem prestar atenção ao que foi dito. Estava ocupada em sonhar, sem saber que seria seu último sonho, e, mais que isso, o último sonho de uma flor. Sonhava o sonho sem medo de despertar, como quem vive sem se tolher diante da iminência morte. Seu sonho era alegre e colorido.
A rosa sonhou com um mundo onde a natureza se desenvolvia livremente. O ciclo da água se renovaria com pureza, das nascentes, lagos e rios, evaporando, chuvendo, desaguando no mar. O ar sem elementos tóxicos, elevaria progressivamente sua concentração de oxigênio. A terra teria um descanso da intensiva ação mecânica e química, recuperaria sua fertilidade e produziria agroecologicamente comida para todos, além de abrigar a fauna e flora, que voltariam a se multiplicar em um espetáculo de biodiversidade. As sociedades humanas parariam de submeter sucessivamente a si próprias e a todo ambiente ao seu redor para viver de forma mais harmônica. Redividiriam as terras, as casas, os meios de produção e toda riqueza até que se garantisse a dignidade de todos. O luxo não cessaria de existir, mas respeitaria à lei maior: todo e qualquer privilégio só seria tolerável depois que todos tivessem seus direitos garantidos. Resumindo: o capital cairia do trono, junto com sua respectiva sociedade e seu conjunto de valores.
A rosa acorda. Percebe que seu sonho não é uma distante utopia, mas uma visão do futuro. Este começará a se concretizar quando o homem despertar.

Mais que nunca, agora,
Nesses tempos de tempestades
É preciso retomar nosso jardim:
Plantemos a liberdade.

Devemos sempre plantar
Mesmo que não para nós
O fruto um dia virá
Porque o jardim não tem dono,
E é com o capital sem trono
Que a rosa sonhará

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Um pensamento sobre “O sonho da rosa

  1. Claudio Alencar disse:

    1:49 h?!! Nao: escrevi `as 22:50 h!

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